Sobre livros, coques e meias.

Sobre a cama, estão todos os livros sobre todas as coisas que ela quer ser quando crescer. Alguns, sérios demais, falam sobre cirurgias e direitos dos cidadãos. Outros, mais divertidos, sobre como pilotar um avião e como se preparar para colocar a roupa vermelha sobre o pijama, em caso de incêndio. Ela quer tudo e ela acredita fielmente que pode fazer tudo. Mas é na primeira tentativa falha de fazer um bom coque que ela nota que não sabe fazer nada. Não canta, não dança, não faz as pessoas rirem. Pouco dá conselhos e quando dá, nem são tão bons. Não sabe se apaixonar e não sabe desapaixonar. Demora pra dormir e no outro dia, não quer acordar. Divaga e cria mundos, mas não se acha boa o suficiente pra compartilhar sobre eles. Tem segredos tão bobos que se sente mal por não ter segredos como os outros. Em um mundo em que todo mundo fala da importância do “pé no chão”, ela quer voar. Em um mundo em que todo mundo diz que os “opostos se atraem”, ela só quer alguém que a complete. Só precisa de livros e abraços. Até passou pela cabeça dela criar um livro que abraçasse, mas ela não tinha nenhum livro sobre que profissão ela deveria ter para poder criar coisas. Esbofeteou o controle do rádio e olhou para as meias brancas que dançavam junto com seus pés. O volume do rádio aumentou sozinho. A música favorita, tocou sozinha. Que tipo de médica-advogada, piloto-bombeira dançaria com suas meias brancas no chão sujo? O medo de cair, não existia mais. O medo de tudo dar errado, tinha evaporado. O medo de não ser amada foi ultrapassado por uma vontade louca de amar a si mesma. O coque quase perfeito agora era bagunçado e muito melhor que antes. As meias agora eram cinzas e as nuvens do lado de fora dançavam junto com ela. Os livros sobre o futuro foram colocados na estante. “Eu tenho todo o tempo do mundo”, ela entoou. Um caderno surgiu na cama e ela começou a escrever sobre os mundos que criava. Sobre tudo que era bonito demais na mente dela, tudo que ela tinha medo de estragar colocando no papel. Tudo que ganhou vida no momento em que a caneta começou a dançar, junto com seus pés. Até pensou em comprar um livro sobre escritores. Talvez depois.  Que tipo de médica-advogada, piloto-bombeira dançaria com suas meias brancas no chão sujo? O tipo que voa, no tempo livre.

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