Eu lhe dou o mar.

Sinto minhas juntas queimarem enquanto tento me levantar. Não faço ideia de quanto tempo fiquei deitada no chão, mas já é noite. Meu rosto está seco e salgado, como se eu tivesse passado um dia mergulhando em alto mar. Eram só lágrimas. O chão gira ao meu redor e procuro um lugar para me sentar. Puxo o pequeno celular e tomo um susto. Fiquei deitada um dia inteiro. Sem fome, sem sede e sem calor. Mexo meus dedos doloridos, tentando espantar o roxo que mais parece um hematoma. Nenhuma chamada. Nenhuma mensagem. Não é sua culpa. Idiota, idiota. Você estraga tudo, nunca consegue se controlar. Não existem mais lágrimas, o que me deixa mais triste porque a sensação de mar foi embora e não me carregou junto. Penso em todas as besteiras que já fiz, todos os palavrões que já gritei e todos os remédios que já tomei. Você não é louca. Você deixa todos tristes. Nenhuma festa, nenhuma bebida, nenhum amigo pode salientar esse meu egoísmo mórbido de ser triste sem motivo. De ser uma louca que simplesmente fica triste. Que está feliz, mas fica triste. Malditos genes. Talvez eu não fosse assim. Talvez eu fosse normal, se todos fossem normais. Talvez eu fosse como os outros que sorriem mesmo quando não querem sorrir. Que seguram as lágrimas até chegar ao banheiro mais próximo ou que só cometem erros para contar para os amigos o quanto é legal ficar dias sem comer ou tirar fotos de cortes que mais parecem pequenos arranhões causados por pequenas quedas. Minhas quedas são grandes. Meus arranhões são imensos, mas são bem escondidos. Nunca gostei que sentissem pena de mim e por isso odeio tanto não conseguir me controlar. Porque choro e estrago tudo. Choro, sou consolada e depois tenho que lidar com os sussurros. “Aquela que estraga toda a diversão”, “Louca”, “Ouvi dizer que passou as férias em um manicômio”. Vocênãoélouca. Sinto vontade de abraçar o frio e mergulhar com ele na imensidão. Quero que ele seque minhas lágrimas e me carregue para outros mundos. Mas o frio é tão egoísta quanto eu. Não daríamos certos juntos. Ele me dá a brisa e eu lhe dou um pouco do mar, cada dia. E continuo forçando cada passo em direção a vitória de ser uma pessoa normal. Uma garota normal. Mas não consigo sorrir o tempo todo. Não consigo fingir o tempo todo. Só o que sei fazer é chorar o tempo todo. Porque é a única coisa que me trás alivio.

PS: Mais uma crônica, dessa vez baseada em um sonho que eu tive. Não gostei tanto dessa quanto da outra e até me sinto meio culpada, com medo de não expressar direito o que as pessoas com problemas de verdade sentem. Mas é como se meu coração tomasse meus braços e digitasse. E eu nunca consigo para-lo. Nem quero. Deixe ele mostrar ao mundo o que tem a dizer. Só espero que ele não faça muito barulho. Não quero incomodar.

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