Um bom lugar para encontrar o pedaço que faltava.

Estou em uma livraria qualquer. Não fui procurar a ajuda de algum vendedor porque quero ser surpreendida. Uma capa bonita, algo sobre uma garota que esqueceu do passado, esqueceu do amor. Respiro fundo e aperto o livro. Esquecer o amor não me parece uma má ideia. Olho para o lado, em busca de um caixa e vejo você, folheando algo. Logo penso que é uma revista em quadrinhos ou um livro ilustrado. Tão ingênua. Júlio Verne. Seus tênis são velhos e sua camisa tem um quote que já li em algum lugar. Seu cabelo é bagunçado, mas você não liga. Está sorrindo enquanto admira uma página. Aposto que você já leu o livro e está só matando a saudade. Você encontra meus olhos e eu me viro, mais rápido do que deveria. Me afasto e consigo sentir você sorrir. Ou rir. Me preparo para fugir pelo corredor da esquerda, mas lá está você na minha frente, sorrindo, balançando “A volta ao mundo em 80 dias”, como um troféu. Você me pergunta se eu já li o livro e eu me aproximo tanto que até parece que sou míope. Você usa um perfume diferente, que não me lembra ninguém. Vibro por dentro. Faço que não com a cabeça e você tira o livro sobre a garota que perdeu a memória da minha mão e coloca o do Júlio. Quando você coloca o livro da garota em uma prateleira qualquer eu sussurro: “Devíamos colocar isso no lugar certo” e você ri. E todo o mundo para. Deixe o livro lá se isso vai o fazer rir novamente. Nos encaramos pelo que parece horas. Será que você está me medindo, como eu estou medindo você? Tento não notar, mas quando você respira sua camiseta levanta um pouco. E seus olhos ficam mais castanhos com a luz da livraria. E sua mão ainda está sobre o livro que agora eu seguro. Suas mãos estão segurando as minhas. Uma risada estrangulada me escapa e eu fico vermelha. Você segura minha mão e me leva até o caixa. Puxo minha bolsa mas você a empurra de volta. Me pede para esperar lá fora. “Espero mesmo que você não roube o livro, porque eu posso pagar” sussurro, e você ri novamente. Ninguém nunca ri dos meus comentários. Eu sorrio. Você não está rindo de mim, está rindo comigo. E isso faz tudo parecer mais bonito. Até a criança se jogando no chão porque quer um livro de colorir parece adorável. Espero por alguns minutos até você sair. Com o livro. Você me entrega e pede desculpa pela demora. Eu sorrio e agradeço. Sugo todo o ar da livraria e me preparo para convidar você para qualquer coisa quando você me diz que precisa ir. Agradeço pelo livro e vejo você se afastar. O chão devia estar muito interessante, já que volto para casa o encarando. Horas depois abro o livro e encontro alguns números. Alguns números e uma frase. ““Nunca se fez nada grande sem uma esperança exagerada.” Me liga?”. É, você realmente gosta de Júlio Verne. E de garotas abandonadas em livrarias.

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